O CONHECIMENTO DA QUALIDADE DOS INSUMO UTILIZADOS NA CRIAÇÃO DAS AVES

Macro e Microminerais na Alimentação Animal
Prof. Antonio Gilberto Bertechini e Édison José Fassani
Departamento de Zootecnia - Universidade Federal de Lavras
bertechi@ufla.br

1. Introdução

O conhecimento da qualidade dos insumo utilizados na criação das aves é de fundamental importância para que se obtenha sucesso na atividade.

Neste contexto, os minerais representam um grupo de substâncias essenciais para a boa nutrição dos animais e podem ser classificados academicamente em macrominerais e microminerais ou elementos traços. Esta classificação está relacionada com as concentrações desses elementos nos tecidos, que de certa forma, indicam as suas necessidades orgânicas. Constituem parte importante do organismo animal, representando de 3 a 4 % do peso vivo das aves e 2,8 a 3,2% dos suínos. Nas rações de aves e suínos, a suplementação dos minerais representam de 3 a 4 % do custo das rações para os macros e de 0,4 a 0,6 % para os microminerais (Bertechini, 1998).

As fontes de minerais para utilização em rações animais são diversas, sendo que as suas biodisponibilidades (absorção e utilização) variam em função de uma série de fatores como a forma química, a idade e espécie dos animais, do nível de ingestão mineral, da interação com outros compostos da ração, entre outros. Enquanto que minerais na forma inorgânica como o sódio, cloro e potássio são completamente absorvidos, tem-se os microelementos de maneira geral, baixíssima taxa de absorção, e como exemplo, pode-se citar o caso do manganês que varia de 3 a 4 % (McDowell, 1992).

Os estudos sobre fontes de minerais para rações datam desde a década de 50, onde foram observadas as necessidades de suplementação. A utilização de dietas purificadas e semi-purificadas da época, não permitiam equalização principalmente quanto as interações que ocorrem com o uso das dietas práticas. Assim, dados deste períodos para suplementação de microminerais, como exemplo, ainda são indicados nas tabelas de recomendações nutricionais (NRC,1994 e NRC, 1998 para aves e suinos ( respectivamente). Por outro lado, existe a necessidade da atualização desses valores para evitar problemas de campo.

A suplementação de macrominerais em rações de aves e suínos, tem tido alguma modificação não somente em função do melhoramento genético desses animais, mas, pelos estudos que indicam a necessidade do conhecimento das características físicas e químicas das fontes, que implicam em maior ou menor utilização pelos animais. As características químicas e físicas do calcário, por exemplo, são determinantes na sua biodisponibilidade, e, importante para adequar as necessidades dietéticas do cálcio. A questão de ambiente também tem preocupado os nutricionistas que possuem tal consciência para com o meio em que vive. Assim, pesquisas recentes indicam que é possível reduzir a suplementação mineral sem afetar o desempenho dos animais. O uso de enzimas que promovem maior biodisponibilidade dos minerais como fósforo, zinco e manganês, além das fontes orgânicas, participam deste contexto.

O presente trabalho, não tem o objetivo de abordar todo o complexo de estudos sobre as fontes de macros e microminerais , mas sim , trazer uma abordagem de aspectos relacionados com a qualidade da suplementação mineral em rações de aves e suínos.

2. As Fontes Minerais

2.1. Cálcio

a) Calcário Calcítico e Farinha de Ostras

O termo calcário é empregado geologicamente para caracterizar um grupo de rochas que apresenta em sua composição teores de carbonatos superiores a 50% (Moniz, 1983). Do ponto de vista prático, os calcários são classificados, quanto ao conteúdo de óxido de magnésio (MgOX em calcíticos, magnesianos e dolomíticos, com concentrações menores que 5%, entre 5 a 12% e maiores que 12%, respectivamente (Koche et al., 1989). Ou seja, um calcário 6 considerado calcítico, quando apresentar concentração de magnésio (Mg) inferior a 3%.

Sabe-se que a utilização correta do calcário está longe de ser empregada nas granjas, isto devido principalmente ao não conhecimento de características como níveis reais de cálcio e de magnésio, granulometria (uniformidade), solubilidades in vitro e in vivo, biodisponibilidade do cálcio (frangos de corte e suínos) além da possível presença de metais pesados, nocivos à saúde animal e consequentemente a saúde humana. O calcário é visto exclusivamente como fonte de cálcio, porém na sua análise verifica-se uma vasta composição de outros elementos (Tabela 1) que podem variar muito na sua quantidade e possivelmente prejudicar o desempenho animal, além deste fato, também a farinha de ostras apresenta em sua composição vários outros elementos e, desta forma alguns resultados favoráveis ao uso destes ingredientes que na verdade pode ser um efeito indireto de outros elementos, como o sódio e o manganês normalmente presentes.

b) Granulometria e solubilidade da fonte de cálcio

O aprimoramento genético visando maior produção, tem contribuído para aumentar as necessidades específicas de poedeira, frangos de corte e suínos modernos . Neste contexto, o cálcio, tem sido estudado, com objetivo de melhorar a qualidade de casca dos ovos e o sistema ósseo de aves e de suínos. Estudos não somente de fontes, mas também das suas características físicas e químicas tem despertado os nutricionistas. Teixeira (1982) por exemplo, deixou claro em seu trabalho com poedeiras comerciais, que a utilização de calcário pulverizado associado com parte na forma granulada resultou em melhoria significativa da qualidade da casca do ovo.

A suplementação de cálcio através de uma fonte com granulometria grossa propicia uma retenção mais prolongada na moela, o que o torna mais disponível durante o período de formação da casca do ovo (Scott, 1971; Oliveira, 1997). Roland (1986), relata que a suplementação de cálcio com granulometria grossa em dieta de poedeiras pode ser benéfica durante situações adversas, tais como em temperatura ambiente elevada e espaço inadequado nos comedouros ou seja, em situações que afetam o consumo alimentar.

Muitos trabalhos de pesquisa recomendam o uso de proporções entre calcário fino e calcário pedrisco ou farinha de ostras, a fim de reduzir os índices de perdas de ovos, sem afetar as demais medidas de desempenho das aves. Porém, Rao e Roland (1992) sugerem que partículas grandes de calcário podem ser benéficas sob condições não ideais, sendo que em condições normais não haveria a necessidade de se fazer tal substituição e, 1,00 mm seria a granulometria mínima para promover uma retenção maior na moela.Vários são os fatores que podem influenciar na absorção do cálcio suplementado deve primeiro se solubilizado no trato gastrointestinal antes que seu conteúdo de cálcio possa ser metabolicamente utilizado.

A espécie animal é outra variável a ser considerada na avaliação do calcário,pois existe uma flutuação da demanda de cálcio nas 24 horas do dia no caso de poedeiras, enquanto que em frangos de corte, a demanda por cálcio é menor e constante durante o dia. Assim a granulometria e a solubilidade in vitro do calcário devem ser diferentes entre frangos de cortes e poedeiras. Para frangos de corte, a maior solubilidade in vitro pode trazer prejuizos no aproveitamento do cálcio. Este fato é agravado quando se leva em conta a formação da casca do ovo, que normalmente ocorre durante a noite, onde a presença de calcário na moela contribui para formação de melhor casca e/ou menor displêndio das reservas ósseas de cálcio, ou seja , para as poedeiras pode se fazer uso de calcário menos solúveis ou de granulometrias maiores, enquanto que, para frangos de corte os calcários mais solúveis ou de granulometrias mais finas são os indicados.

Rabon e Roland (1985), avaliaram 44 diferentes calcários e farinhas de ostras, produzidas por nove companhias americanas e, encontraram uma variação de até 63% nos valores de solubilidade in vitro entre elas, utilizando uma mesma granulometria nas comparações. No Brasil existem poucos estudos nesta área, portanto pouco se conhece sobre os calcários que são empregados nas rações animais. Na Universidade Federal de Lavras, iniciou-se recentemente uma linha de pesquisa neste sentido e já se pode afirmar que existem variações nas solubilidades dos principais calcários produzidos no Estados de Minas Gerais. Na tabela 2 estão apresentados alguns resultados de solubilidade in vitro de alguns calcários calcíticos encontratos no mercado mineiro e, utilizados na alimentação animal. Com relação a granulometria dos calcários comercializados verifica-se grande desuniformidades, que de certa forma tem influenciado nas recomendações de cálcio atuais. Indicações para poedeiras comerciais a nível de campo, por exemplo, tem variado de 3,6 a 4,4% de cálcio, sendo que estas aves possuem a mesma exigência metabólica e que tais variações podem estar relacionadas com o uso de granulometrias inadequadas por falta de conhecimentos das fontes.

1 - Médias seguidas por letras diferentes na coluna diferem-se estatisticamente pelo teste de SNK (p<0,01).
2 - Erro padrão da média.

Fassani e Bertechini, dados não publicados.

Resultados estabelecidos por Rao e Roland (1989), indicam que o tamanho de partícula e a quantidade de cálcio consumido influenciam na taxa de solubilização do calcário no trato digestivo da poedeira. As poedeiras solubilizam uma menor percentagem do cálcio ingerido quando o nível de ingestão de cálcio elevado e solubilizam uma maior percentagem quando este suplemento através de partículas maiores. Em um outro ensaio, Rao e Rolafld (1990), com o objetivo de determinar interações entre o tamanho da partícula, a solubilidade do calcário in vivo, e o “status” de cálcio das aves, observaram que a percentagem de solubilização e retenção do cálcio diminuíram quando o nível de cálcio foi aumentado e, as aves que consumiram calcário com partículas grandes, reteram mais cálcio do que as aves alimentadas com calcário pulverizado nos níveis de 3,0; 4,5; e 6,0 % de cálcio dietético, demonstrando que o nível de cálcio e o tamanho da partícula da fonte, influenciam a solubilização no sistema digestivo, pois as aves que consumiram calcário mais grosso (2 a 4 mm), solubilizaram e reteram uma maior percentagem de cálcio do que as aves que receberam calcário fino (0,5 a 0,8 mm), Tabela 3.

Ao avaliar os efeitos de calcários com diferentes taxas de solubilidade sobre o desempenho e a qualidade de casca dos ovos, Thim e Coon (1990), concluíram que ao substituir calcário por farinha de ostras, ou um calcário de solubilidade mais alta por um de solubilidade mais baixa e vice-versa, em tentativas a curto prazo ,não mostrou nenhuma diferença significativa em qualidade de casca ou desempenho na postura. Porém, Guinotte e Nys (1991), trabalhando com poedeiras de ovos marrons, obtiveram melhores resultados de peso de ovos, peso de casca e resistência óssea à quebra, quando utilizaram calcário com granulometria grossa, e, concluíram que independentemente da origem do carbonato de cálcio (calcário ou casca de ostras) uma granulometria mais grossa melhora as características ósseas como a resistência à quebra e o teor de cinzas.

A relação entre nível de cálcio, fonte, classificação segundo o tamanho, solubilidade in viro- e in vivo e retenção de calcário na moela foram estudados por Zhang e Coon (1997), constatando que a retenção de calcário na moela aumentou quando a solubilidade in vitro era mais baixa ou quando o nível de cálcio dietético aumentava, sendo que a solubilidade in vivo do calcário diminuiu com o aumento do nível de cálcio dietético. Demonstrou também que, calcários com tamanho de partículas maiores de 0,8 mm com baixa solubilidade in vitro (30 a 50%) ficam retidos na moela durante um tempo mais longo, aumentando sua solubilidade in vivo. Os resultados apoiam o çonceito que tamanho de partícula maior ou a baixa solubilidade in vitro pode aumentar a retenção de cálcio pelas poedeiras.
Adaptado de Rao e Roland, 1990
L = efeito linear, C= efeito cúbico.

Roland (1999), comenta que a substituição do calcário finamente moído por um de granulometria mais grossa, para poedeiras não deve ser superior a 50%, a fim de não afetar o consumo das aves, também afirma que fatores como a densidade e impurezas podem influenciar a solubilização do calcário, afetando o uso do cálcio pelas aves.
No que diz respeito a granulometria e características físico-químicas do calcário, a literatura internacional apresenta considerável atenção às poedeiras. De forma contrária, existem somente uns poucos estudos tratando deste assunto para os frangos de corte e, na maioria das vezes os resultados apresentados são conflitantes.

Mcnaughton e Dealton (1980), por exemplo, recomendam o uso da fonte de cálcio em uma granulometria média (0,25 a 0,85 mm) para maximizar a ossificação nos frangos em crescimento, quando comparado a uma granulometria grossa (2,36 a 3,35 mm) ou fina (<0,15 mm). Porém, de forma divergente Guinotte e Nys. (1991), encontraram melhores resultados para retenção de cálcio, peso na quarta semana, conversão alimentar e ossificação da tíbia para os frangos que receberam o suplemento de cálcio com partícula fina (<0,15 mm), independente da fonte de cálcio (concha de ostras, mármore ou calcário). Resultado também diferente foi apresentado por Andersen et al, (1984), que não observaram diferenças entre calcário com tamanho de partícula média (0,25 a 1,00 mm) e fina (< 0,075 mm), sobre o ganho de peso e conversão alimentar, utilizando dieta com 0,9% de cálcio.

Todos os resultados apresentados indicam a necessidade de maiores informações nos estudos de exigências de cálcio, sobre as características físicas e químicas das fontes utilizadas, para assim, poder comparar resultados e melhor adequar as necessidades deste importante macromineral na nutrição de aves e suínos.
Assim, verifica-se que a importância da realização de novas pesquisas na área, para acompanhar a evolução da produção de aves e suínos no Brasil e, poder também equacionar o melhor uso das fontes de cálcio, no sentido de eficiência, da redução dos desperdícios e do uso mais racional das jazidas.

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